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Um apelo ao bom senso - Carta à
Sociedade Brasileira
Sociedade Brasileira de Engenheiros Florestais
Um apelo ao bom senso
Carta à Sociedade Brasileira
A história nos revela, de maneira inequívoca, o imenso
desperdício econômico, bem como suas graves conseqüências
sociais e ambientais, que devem ser computados entre os passivos
dos processos de redução das florestas brasileiras
em índices superiores à 90% na Mata Atlântica,
50% no Cerrado e 20% na Amazônia.
Dois terços de toda madeira consumida no Brasil ainda são
provenientes de florestas nativas. Em princípio, todos estão
muito preocupados com a exploração ilegal de madeira.
Ironicamente, tal preocupação, por mais sincera e
legítima que seja, ainda não foi capaz de alterar,
em larga escala, determinados padrões de consumo.
Ao comprar um apartamento em construção, quem verifica
a origem da madeira que serviu para escorar e enformar as lajes,
vigas e pilastras do prédio? Ao comprar um móvel de
madeira maciça, quem identifica na mobília aquela
árvore que viu sendo derrubada pela televisão? Ao
construir uma casa, um telhado bem forte e resistente é utilizado
“madeira-de-lei”, quem verifica se a madeireira do bairro
apresenta certificado de origem dos seus produtos? Quem verifica
a origem da lenha utilizada nos fornos da padaria? Na pizzaria?
Ou no carvão do churrasco?
É esta incoerência cidadã, que reforça,
financia e retro-alimenta a exploração insustentável
de nossas florestas nativas, e neutraliza a indignação
contra os desmatamentos diante do primeiro hábito de consumo.
Mais incoerente porém, é a campanha que tem sido levada
a cabo contra o único setor produtivo que planta 100% das
árvores que utiliza.
Afinal, de onde vem o papel que tem sido utilizado para imprimir
os muitos manifestos, panfletos, cartazes e até mesmo livros,
usados para difamar e questionar a atividade florestal no Brasil?
De onde são extraídas as fibras naturais utilizadas
na fabricação de toda a gama de papéis utilizados
diariamente pelos cidadãos brasileiros, incluindo entre estes
os críticos dos plantios florestais? Dos livros e jornais
aos sanitários e embalagens, quem pode dizer que não
os usa?
A silvicultura brasileira tem se desenvolvido de tal maneira que
já é possível encontrar no mercado madeiras
de excelente qualidade provenientes de plantios florestais. Estes
produtos, resultados do avanço tecnológico da indústria
florestal brasileira, apresentam-se como alternativas viáveis
e competitivas às madeiras extraídas das florestas
nativas do nosso país, contribuindo de maneira significativa
para reduzir a pressão sobre as mesmas.
Nenhum outro setor industrial ou agrícola brasileiro tem
cumprido tão rigorosamente normas e leis ambientais, especialmente
o Código Florestal. Afinal, que outra atividade rural de
larga escala tem averbado praticamente 100% das suas Reservas Legais
e têm respeitadas as Áreas de Preservação
Permanente, especialmente as margens dos rios e lagos?
Segundo dados do Programa Nacional de Florestas, a área
total plantada com espécies de Eucalyptus e Pinus no Brasil
é de 55 mil km2, ou cerca de 0,7% do território nacional,
distribuídos pelos segmentos produtivos de celulose e papel,
da siderurgia, moveleiro, energia, construção civil,
resina, painéis estruturados e uma gama de outros produtos
oriundos das florestas plantadas.
Além da área destinada à produção
florestal, as empresas do setor têm sob seu controle e proteção
mais 16 mil km2 destinados à proteção ambiental.
Isso significa que para cada dez hectares de plantios comerciais
o setor protege outros 5 hectares de nativas, os quais vêm
sendo restaurados e protegidos adequadamente, exercendo funções
ecológicas importantes como a de repositórios de biodiversidade
e corredores ecológicos.
Segundo estudo recente realizado para o Ministério de Ciência
e Tecnologia, o setor florestal brasileiro compreende cerca de 60
mil empresas, com um faturamento total estimado em US$ 21 bilhões,
correspondendo a 5% do PIB nacional. O setor responde ainda por
14% do total arrecadado em divisas com as exportações
brasileiras, sendo responsável pela geração
de 2,5 milhões de empregos diretos e indiretos, equivalente
a quase 11% da população economicamente ativa do país.
Contribuiu ainda com US$ 3,8 bilhões anuais na arrecadação
de impostos.
Por estar vinculado ao Ministério do Meio Ambiente, o setor
florestal se desenvolve sob regras e restrições que
na prática não têm sido cobradas de outros setores
rurais. Ao contrário de ser um problema, esta vinculação
representa uma vantagem competitiva. Exemplo disso são as
afirmações da ministra Marina Silva, referência
internacional do movimento ambientalista, que classificou as florestas
plantadas como “o plantio de árvores, acrescido de
valores ambientais, sociais, culturais, tecnológicos e econômicos.
É a aplicação da soma de conhecimentos gerados
pelas universidades, instituições de pesquisas, empresas,
com investimentos de mais de 500 milhões de dólares,
ao longo dos últimos 35 anos e que contou com a ativa participação
de centenas de pesquisadores especializados e milhares de produtores
determinados.” Ainda, segundo a ministra, “plantios
de árvore, de soja, de milho, de arroz, de feijão
e outros são realmente muito semelhantes, mas as florestas
plantadas se diferenciam pela menor intensidade no uso do solo e
no uso de defensivos, pelos ciclos mais longos, a manutenção
de Áreas de Preservação Permanente, a integração
com as áreas de Reserva Legal, a manutenção
as áreas protegidas na constituição de corredores
ecológicos, a implantação de procedimentos
de colheita de baixo impacto, a promoção do uso múltiplo
dos produtos e serviços, o forte investimento na qualificação,
segurança e saúde dos trabalhadores e a ação
integrada e construtiva junto à comunidade do entorno através
de programas educacionais e de fomento.”
Todavia, o que temos visto no caso da campanha contra as florestas
plantadas no Brasil é uma crítica ferrenha, mas quase
sempre carente de um mínimo de embasamento técnico-científico,
numa atitude que tenta demonizar, para a opinião pública,
todo um gênero botânico com mais de 600 espécies,
e de características distintas entre si.
Discursos e textos apontam as florestas plantadas como as principais
ou, em alguns casos, as únicas responsáveis por toda
uma gama de problemas sócio-ambientais que o país
enfrenta, incluindo a falta de uma reforma agrária efetiva
e eficiente, a política de juros, o modelo de desenvolvimento
em curso no país e no mundo, a falta de trabalho e o desmatamento
das florestas tropicais do país.
Esta campanha, levada por algumas organizações com
o apoio de movimentos sociais de luta pela terra, e principalmente
de entidades internacionais, tem apresentado à sociedade
termos e expressões que carecem de um mínimo de conhecimento
científico, de respeito à verdade e à dinâmica
dos recursos naturais. É evidente que as plantações
florestais não se comparam, em termos de biodiversidade,
em paisagem e em serviços ambientais, às florestas
tropicais nativas de nosso país. Entretanto, ao serem taxadas
de “desertos verdes”, seus detratores inflamados demonstram
um enorme abismo de conhecimento, informação e bom
senso. Em contraponto, os resultados obtidos por uma recente pesquisa
feita pelo IMAZON, uma das organizações ambientalistas
mais respeitadas do país, demonstraram que os assentamentos
de reforma agrária têm sido responsáveis por
parcela significativa dos novos desmatamentos na Amazônia.
As vantagens comparativas e competitivas da atividade florestal
brasileira são reconhecidas mundialmente e têm sido
motivo de grandes preocupações entre nossos competidores
diretos. O Brasil consolida-se a cada dia como líder mundial
na produção florestal, agraciado pelas dimensões
territoriais e condições de solo, luz e água,
associados ao conhecimento científico gerado pelas universidades,
centros de pesquisas e pelos pesquisadores que integram o corpo
técnico das próprias empresas.
A exploração de nossas florestas teve início
com o descobrimento, e um dos recursos mais explorados deu origem
ao nome de nosso país: Brasil. Hoje, com a soberania da nação
e o desenvolvimento tecnológico proporcionado pela Ciência
Florestal, o Brasil gera empregos e divisas através do mercado
internacional de produtos de origem florestal, passando de detentor
de uma fatia de 1% em 1990, para aproximadamente 5% em 2005, ao
exportar US$ 7,5 bilhões num comércio global que movimentou
US$ 160 bilhões no ano. Os produtos oriundos das florestas
plantadas no Brasil contribuíram com mais de 75% dessas exportações.
Tudo isso, somado a uma vertiginosa capacidade produtiva, a maior
segurança para os pequenos e médios produtores, e
a possibilidade de agregar outros valores através de consórcios
de culturas, seqüestro de carbono, entre outras, de certo a
atividade florestal será um dos fatores de desenvolvimento
sustentável de nosso país, à ser consolidado
nas próximas décadas.
Não se pode pôr em risco todo este potencial por não
conseguirmos, enquanto sociedade democrática, encontrar o
caminho do diálogo, do entendimento e da responsabilidade
social, econômica e ambiental. É fundamental a criação
de espaços qualificados de diálogo entre os diversos
setores da sociedade – empresas, governos, ambientalistas
e movimentos sociais – nos quais os conflitos de interesse,
que são naturais, possam ser debatidos e mediados de maneira
transparente, legítima e pró-ativa. É inadmissível
e profundamente lamentável que este debate seja conduzido
de forma atabalhoada, imprecisa e com base em ideologias políticas
ou em concepções equivocadas.
Os Engenheiros Florestais têm a convicção que
tanto as florestas quanto a atividade florestal estarão sempre
presentes no cotidiano dos brasileiros, no usufruto direto dos bens,
produtos e serviços ambientais oferecidos pelos plantios
homogêneos e pelas florestas naturais manejadas de forma sustentável.
Temos o nome de árvore, e o completo domínio tecnológico
no setor florestal. Falta-nos, no entanto, construirmos juntos uma
nação que se orgulhe de sua vocação
florestal.
A Sociedade Brasileira de Engenheiros Florestais - SBEF, congrega
profissionais com ampla atuação nas mais diversas
áreas da Ciência Florestal, e que em comum têm
a dedicação de anos de suas vidas ao estudo, pesquisa
e desenvolvimento tecnológico na preservação
de nossas florestas. Profissionais éticos, isentos, e realmente
gabaritados para a análise técnica e científica
dos plantios de árvores, suas características ambientais,
econômicas e sociais. Como entidade máxima de representação
destes profissionais, composta por 29 Associações
Regionais de Engenheiros Florestais, a SBEF vem publicamente fazer
este apelo ao bom senso, em prol do meio ambiente, do desenvolvimento
e do bem estar social da nação.
Eng.º Florestal Glauber Pinheiro
Presidente da SBEF
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